Educação + autoestima= exuberância

Uma menina por volta dos 12 anos se lamenta para a mãe: “… mas ela é mais bonita que eu…” a mãe fica em silêncio, como se consentisse, mas sem coragem de externar beija a testa da filha e encerra o assunto. Eu sigo meu caminho e penso na dificuldade de lidar com essa situação e qualquer outra que envolva a autoestima, característica imprescindível para uma vida mais plena.

Até os 10 anos, minha autoestima era maravilhosa. Eu nem me preocupava com a aparência. Só queria nadar, correr, imitar a Xuxa e brincar de She-ha (ai de quem quisesse ser a She-ha no meu lugar). De repente a adolescência começou a despontar e deu-se a desgraça. Magricela, dentuça, pernas compridas demais, cabelo rebelde. “Sou horrível.” Bem, essa constatação durou até meados dos 30 anos o que tornou minha concepção de existência aquém do que poderia ser.

Em casa tive a dádiva de ter um pai coruja, meu irmão e eu éramos sempre os mais sensacionais. O problema é que nossa aceitação tem que ser de dentro para fora e mesmo com a dedicação de um pai cheio de afeto a minha definição era a mesma: “Sou horrível”.

Na escola, não faltaram os que concordavam comigo e todos os dias, mesmo que tentasse esquecer, alguém me lembrava de que eu era horrível. Outras meninas e meninos sentiam o mesmo e tenho certeza que isso também os entristecia o que me faz indagar se a concepção de um adolescente sobre ele mesmo, enquanto ainda está na jornada para ser adulto, não deveria ser pauta importante no ensino fundamental e médio. Além de um pai esforçado em identificar o que tínhamos de melhor, não seria interessante professores com o mesmo propósito? Afinal toda semana e em algumas situações durante anos, convivemos com os mesmos mestres. Eles também poderiam nos dar uma visão diferente de nós mesmos? Sim e alguns o fizeram e isso os tornou inesquecíveis.

Como o Diretor do colégio diocesano no qual estudei o maravilhoso Padre Adilson Simões, que mesmo sendo eu uma aluna medíocre e bem bagunceira, ele sempre me dedicava olhos sorridentes e dizia: “Como vai a minha artista?” Eu cheia de felicidade guardava essa frase a sete chaves, para só usar em casos de extremo esmorecimento. Funcionava. Obrigada Padre Adilson.

Finalmente o tempo passou (graças!) e o amadurecimento me fez alcançar a serenidade da aceitação de quem eu sou, me trouxe uma segurança que nunca achei que fosse possível. Dedico-me diariamente para jamais esquecer que se eu não me curtir, vai ficar difícil habitar esse mundo maluco.

Para a menina insegura do começo do texto (e para a que insiste em continuar dentro da gente) escrevo: sempre vão existir pessoas mais bonitas, inteligentes, ricas e famosas do que nós. Vamos desejar que a trajetória delas seja incrível! Pequena, a tua história começa hoje e a “mais bonita” não deve influenciar em nada teus dias. Cada alegria, tristeza, afago, abraço, conquista, derrota, vão te tornar única. E sempre existirão pessoas que te provarão o quanto você é importante e os que não acharem, não te interessam. Seja delicada, paciente, gentil, autêntica, serena, tenha empatia e coragem. Jamais se submeta! Aprenda a enxergar o mundo da melhor forma possível. Sorria! Sorria até do que não deu certo. Chore quando doer deixe passar e aprenda a lição. Independente dos “mais” ou dos “menos” é certo que você será feliz e nada terá tanto significado em tua vida.

Finalizo com a melhor definição de beleza, pelo brilhante Rubem Alves: “Somos as coisas que moram dentro de nós. Por isso há pessoas que são bonitas. Não pela cara, mas pela exuberância do seu mundo interno”.

Por uma educação que nos mostre que o importante é a exuberância do nosso mundo interno, em casa e na escola.

Gabriela Patú

Professora e Gestora de Conteúdo

Iniciare Educação Criativa

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